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Pesquisador da NASA Revela: "O
Segredo do Efeito Estufa Está nos Oceanos"
O aquecimento global entrou na pauta de prioridades da NASA. O
físico Warren Wiscombe, 54 anos, anunciou na COPPE que em
1999 a NASA estará lançando a plataforma espacial AM-1 para detectar
os principais fatores responsáveis pelo processo de aquecimento global.
O pesquisador da NASA esteve no Brasil, no último mês de novembro,
ministrando um curso sobre efeito estufa, no curso de pós-graduação
em Ciências Atmosféricas da COPPE. Segundo Wiscombe, o segredo do
processo pode estar nos oceanos.
- Especialista nos efeitos das nuvens sobre o clima, Warren Wiscombe,
que trabalha há 14 anos no Laboratório NASA, no Goddard Space
Flight Center, em Maryland, deu uma entrevista exclusiva para o
Planeta COPPE sobre as mais recentes revelações da Ciência sobre
o aquecimento do Planeta.
- Planeta - Que métodos o Sr. vem utilizando para estudar o
aquecimento Global?
- W.W. - Realizo pesquisas sobre a interação entre as
nuvens e os raios solares. O quanto de luz as nuvens refletem e o
quanto elas absorvem. E, é claro, a quantidade de radiação solar
que é transmitida para a superfície da terra. Esta é uma
importante área de estudo. As pesquisas sobre o aquecimento global,
utilizando-se os grandes modelos climáticos, registram que a nuvem
é o elemento variante.
- Planeta - Até que ponto esta variação é relevante?
- W.W. - Os modelos registram uma grande diferença nas
previsões de mudanças de temperatura. São registradas variações
entre 1.5° C a 4.5° C no aquecimento da Terra. E esta diferença
se deve às nuvens. Aí entra o meu estudo que revela exatamente
como as nuvens influenciam no aquecimento global. Em cada modelo as
nuvens reagem de uma determinada forma. Portanto, nesse momento,
conhecemos muito pouco do quanto as nuvens influenciam nas mudanças
climáticas. Só podemos afirmar que influenciam. Para obter
resultados com mais precisos necessitamos de computadores mais
potentes e maior resolução dos modelos.
- Planeta - Até agora o que se sabe realmente sobre o papel das
nuvens no processo de aquecimento global?
- W.W. - Este é o problema. Não sabemos se as nuvens afetam
o clima da terra esquentando-o ou esfriando-o. As nuvens podem
influenciar de duas maneiras. Elas refletem os raios solares,
impedindo que eles cheguem a superfície, resfriando a Terra. Por
outro lado, a presença de nuvens durante a noite tende a elevar a
temperatura. Elas liberam radiação infra - vermelha captada ao
longo do dia. Então, não se sabe o que prevalece: se o esfriamento
provocado pelos raios solares refletidos pelas nuvens ao dia, ou o
aquecimento pela liberação de radiação infra-vermelha à noite.
É nesse ponto que os modelos climáticos diferem.
- O Segredo do Aquecimento Global Está nos Oceanos
- Planeta - De que forma o efeito estufa vem atingindo o Planeta?
- W.W. - Primeiro, é preciso deixar claro uma coisa. Sem o
efeito estufa a Terra estaria coberta de gelo. O efeito estufa faz
parte de um processo natural que permite a perpetuação da vida na
Terra. A questão hoje é o agravamento dessa tendência natural. Os
cientistas estão de acordo de que, se há CO2 (dióxido de carbono)
na atmosfera, a Terra irá, em algum momento, passar por um período
de aquecimento. A questão se resume a quando se dará este
aquecimento. Grande parcela da população mundial que vive próxima
ao mar enfrentará sérios problemas, pois tem-se verificado o
aumento do nível dos oceanos. E mesmo que parássemos de emitir os
gases que formam o efeito estufa, o nível do mar continuaria
subindo. O aquecimento do planeta já faz parte de um processo
natural do sistema. A liberação do CO2 agrava o problema.
- Planeta - Como será o processo de elevação do nível do mar?
- W.W. - Pode levar centenas de anos até se completar. Isso
se deve, em parte, ao lento aquecimento dos oceanos. Ao aquecer, ele
se expande e isto não acontece de um dia para o outro.
Provavelmente os oceanos são os principais agentes do aumento de
temperatura na Terra. Mas de que forma este processo acontece ainda
não conseguimos revelar. Mas é um processo natural e não podemos
evitá-lo. Mesmo se os países deixassem hoje de emitir gases do
efeito estufa, a liberação de calor pelos oceanos ainda pode durar
100 anos, como reflexo do que foi emitido até então. Estima-se um
aquecimento médio da temperatura da Terra entre 2° C a 3° C.
Embora ainda não se tenha um senso comum, alguns cientistas estimam
que este aumento de temperatura se dará por volta de 2050.
- Planeta - O que pode ser feito para evitar o efeito estufa?
- W.W. -Nada pode ser feito. Até porque, no momento, ninguém
vai parar de consumir combustível fóssil, assim como as queimadas
não vão parar nos países que a utilizam. Portanto, não há
chance de se interromper a emissão de gases poluentes para a
atmosfera. Assim que nossas reservas de combustível fóssil se
esgotarem, a quantidade de CO2 chegará ao máximo e levará
aproximadamente mil anos para se dissipar. Caberá aos oceanos
absorver o CO2.
- Missão Espacial da NASA Permitirá Entender o Aquecimento
do Planeta
- Planeta - O que o Sr. acha de utilizarmos fontes alternativas
de energia para amenizar o problema?
- W.W. - Sou totalmente a favor do desenvolvimento de novas
fontes renováveis de energia, como o Brasil fez com o álcool. A
energia solar e o uso do hidrogênio como fonte energética também
podem ser ótimas opções. É uma pena que não tenhamos insistido
nesse caminho nos anos 70 - década em que os países produtores de
petróleo aumentaram os preços do produto, desencadeando uma crise
econômica mundial. Como mais tarde a gasolina voltou a ficar
barata, não houve mais o interesse em se fazer investimentos nesse
setor. O governo Reagan praticamente paralisou as pesquisas nesse
sentido.
- Planeta - Quais são os objetivos da missão espacial que lançará
a AM -1?
- W.W. - A plataforma AM -1 será lançada em junho de 1999.
Ela nos permitirá entender melhor o processo de aquecimento global.
Poderemos desenvolver modelos de mudanças climáticas mais
eficientes. O objetivo é acrescentar mais dados para o aperfeiçoamento
dos modelos climáticos, como a influência das plantas e das nuvens
no aquecimento global e do aerosol, que são partículas sólidas em
suspensão no ar, um fenômeno sobre o qual conhecemos muito pouco.
O aerosol pode esfriar a temperatura na Terra.
- 1998: O ano mais quente dos últimos 500 anos
- Planeta - De que forma?
- W.W. - Veja o exemplo da erupção do vulcão Pinatubo, nas
Filipinas, em junho de 1991. Nos dois anos seguintes, a temperatura
média do planeta diminuiu em 0.3° C em relação ao período
anterior. Após o efeito Pinatubo, o aquecimento global assumiu o índice
que se esperaria caso a erupção não tivesse acontecido. Isto, de
fato, convenceu as pessoas de que o aquecimento global é real. O
que se tem observado desde o começo dos anos 70 é um aumento da
temperatura de 0.1° C a cada 10 anos. O ano de 1998, por exemplo,
foi o mais quente dos últimos 500 anos. Para se ter uma idéia, em
100 anos o índice de aumento da temperatura média do planeta se
deu entre 0.5° C a 0.7° C.
- Planeta - Na sua opinião o que aconteceu com o planeta a
partir dos anos 70?
- W.W. - Supomos que o aumento de temperatura a partir dos
anos 70 faça parte de um ciclo natural. O que está acontecendo é
o fenômeno natural associado ao aumento de CO2 na atmosfera causado
pela emissão de gases pelas sociedades indústriais. Portanto, o
que se constata é um duplo aquecimento. Os modelos estão prevendo
mais calor do que nós temos observado. Não se sabe, ao certo,
quando, nem como será esse aumento.
- Planeta - O Sr. quer dizer então que os modelos previram um
aumento de temperatura maior do que vem sendo constatado?
- W.W. - Sim. Mas é possível que as previsões dos modelos
se confirmem daqui a alguns anos. O aquecimento tem sido muito
intenso. O problema está em não sabermos mensurar o aquecimento
específico dos mares. O único lugar que poderia
"esconder" o calor seriam os oceanos. O que deve está
errado nos modelos é a representação dos índices de liberação
de calor por parte dos oceanos. Os modelos têm previsto um
aquecimento muito grande, porque têm contado com uma grande e rápida
liberação de calor. Provavelmente, os oceanos estão retendo esse
calor para liberá-lo mais tarde.
- Planeta - Na 4° Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas,
em Buenos Aires, o Brasil apresentou o conceito de responsabilidade
histórica dos países quanto a emissão de gases que formam o
efeito estufa. Considerando os 200 anos de poluição causada pela
Revolução Industrial e o efeito prolongado do CO2 na atmosfera os
pesquisadores brasileiros defendem a criação de um fundo
proveniente de multas cobradas aos países poluidores. O que o Sr.
acha da posição brasileira?
- W.W. - Eu concordo totalmente com o Brasil. Nenhum outro
cientista poderia discordar. Boa parte do aquecimento global que
presenciamos hoje é resultado do processo de industrialização dos
países desenvolvidos. É resultado de todo o CO2 emitido na
atmosfera durante esses anos, desde a Revolução Industrial. Eu
entendo porque os países em desenvolvimento se sentem pressionados.
Eles estão simplesmente passando pelo mesmo processo que os países
desenvolvidos passaram. Não parece justo que estes países devam
reduzir a emissão de gases e, consequentemente, o seu
desenvolvimento quando estão ainda começando. Só espero que estes
países não repitam a terrível experiência dos países
desenvolvidos.
- Planeta - Você teria alguma sugestão de como evitar os
problemas sem comprometer o desenvolvimento?
- W.W. - Os recursos renováveis de energia devem ser
amplamente incentivados. Há duas coisas a se aprender com isso. A
primeira é o desenvolvimento e aplicação de novas fontes renováveis
de energia. Por outro lado, devemos lutar pela preservação das
florestas. Não há razão para os países em desenvolvimento
repetirem os erros dos países desenvolvidos na devastação de suas
florestas.
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